Taste: pintura, repetição e presença
Taste (2021), dirigido por Lê Bảo, é um filme vietnamita cuja encenação se afasta do cinema narrativo mais convencional. A obra acompanha Bassley, um jogador nigeriano vivendo no Vietnã que, após perder o contrato, passa a conviver com quatro mulheres.
A narrativa se constrói menos por acontecimentos do que pela repetição de gestos, dando ênfase a tarefas comuns, movimentos corporais, preparação de comida e a uma convivência quase sem fala. O cotidiano passa a ocupar o centro da cena. A ausência de diálogos — o primeiro deles acontece apenas por volta do minuto 18 — é um dos traços mais marcantes do filme, porque define o modo como o espectador observa os personagens. Em vez de explicá-los, Taste os apresenta em um silêncio quase contemplativo.
Apesar de sua força estética, o filme por vezes produz uma sensação de lentidão. Os acontecimentos ficam em segundo plano diante de cenas longas e contínuas, centradas em ações repetitivas. Ainda assim, é justamente esse procedimento que organiza sua experiência. Taste se constrói menos pela progressão dramática do que pela observação insistente dos corpos, do espaço e da repetição. Isso pode afastar parte do público, mas também sustenta a singularidade da obra.